Athos, Guedes, Ramos, Caymmi

 

Nas últimas semanas lamentamos a perda de grandes mestres de nossa cultura, em áreas diversas. Por diferentes motivos e circunstâncias, faleceram recentemente o artista Athos Bulcão, os arquitetos Joaquim Guedes e Miltom Ramos e o músico Dorival Caymmi, perdas inestimáveis para as artes no Brasil e, por que não dizer, no mundo.

 

Artista gráfico, pintor e escultor, Athos Bulcão deixou a faculdade de medicina em 1939 para se dedicar às artes. Tendo colaborado com Portinari em 1945 na confecção dos painéis de azulejos para a igrejinha da Pampulha, se tornou conhecido pelo trabalho desenvolvido junto à arquitetura de Oscar Niemeyer e João Filgueiras Lima (Lelé), na criação de painéis que viriam se tornar sinônimo da azulejaria moderna no Brasil. Seus painéis de azulejos, mármore, madeira, metal e uma infinidade de materiais, trouxeram as artes para o dia-a-dia das cidades brasileiras integrando-se à arquitetura em magnífica sinergia. Nas palavras de Danilo Matoso Macedo, “Athos sinalizou com o cuidado de um ourives que qualquer material, tratado com compreensão, torna-se arte.” Em Brasília, onde se consagraria, seus painéis são tão onipresentes que torna-se difícil imaginar a cidade sem eles. O caráter público de suas obras fez com que obtivessem uma visibilidade poucas vezes alcançada por um artista plástico. Não acreditava em inspiração. Preconizava que o artista tem de saber o que quer fazer: antes de pintar, deve planejar as cores que vai usar. Para ele, o que existe é o talento e muito trabalho. “Arte é cosa mentale“, dizia, citando Leonardo da Vinci.

 

Formado em arquitetura em 1954, em 1956, com apenas 24 anos, Joaquim Guedes participou do concurso de anteprojetos para o Plano Piloto de Brasília, trabalho no qual suas crenças acerca da necessária integração entre os diversos campos da arquitetura podiam ser percebidas. Paralelamente à sua produção, fez da docência parte de sua vida desde muito cedo, lecionando por toda a vida na Faculdade de Arquitetura da USP e por um período na Escola de Arquitetura de Estrasburgo, na França, doutorando-se ainda na década de 70. Egresso da chamadaEscola Paulista”, o discurso arquitetônico desenvolvido por ele na atuação política, em seus textos, edifícios e planos urbanísticos defende uma arquitetura que responda às necessidades cotidianas, em contraposição ao formalismo da “Beaux Artscarioca, tornado quase hegemônico pelas mãos de Oscar Niemeyer. Sua atuação profissional é marcada por célebres projetos residenciais, nos quais adotava configurações inovadoras para as estruturas de concreto, determinadas “diretamente pela razão e pela necessidade do espaço a ser construído”. Na década de 70, Guedes fez diversos planos para cidades em expansão e planejou cidades novas, como Carajás, Marabá e Barcarena, todas no Pará, e Caraíba, na Bahia. Cidades estas sempre planejadas dentro do rigor que caracteriza se trabalho, em função do clima e da realidade econômica dos locais onde se edificaram. Em toda a produção de Guedes destacam-se o racionalismo técnico e os conhecimentos construtivos ímpares, ligados à profunda preocupação com a vida social, entendida por ele como geradora da relação de produção e do saber construtivo, indissociáveis da boa prática arquitetônica. Espírito crítico e instigante, todavia discreto, Guedes havia recentemente se afastado da presidência do IAB São Paulo para se candidatar a vereador na capital paulista pelo PPS, quando teve sua trajetória interrompida por brutal atropelamento na avenida 9 de Julho, onde residia.

 

Dois meses após se formar em arquitetura no Rio de Janeiro, Milton Ramos ruma para Brasília, em busca de ampliar sua experiência profissional. Logo de cara, passa a trabalhar no exaustivo detalhamento desta obra-prima da nossa arquitetura que é o Palácio do Itamaraty e posteriormente também no Teatro Nacional, ambos em colaboração com Niemeyer. A partir do convívio com profissionais, do aprendizado construtivo e das dificuldades encontradas na administração dos canteiros, Ramos desenvolve o rigor construtivo e a clareza projetual que caracterizariam suas próprias obras anos mais tarde. A capacidade de realização desenvolvida então viria permitir que, a partir de 1959, Ramos estabelecesse seu próprio escritório na capital federal, desenvolvendo e construindo obras de grande valor, marcadas nem tanto pela economia irrestrita de meios, mas pela sua correta potencialização. Destacam-se em sua produção projetos marcantes na capital como o Iate Clube de Brasília, o Oratório do Soldado, o Clube da Aeronáutica e inúmeras residências na península das embaixadas, mas também em outros pontos do país, como a Base Aérea de Anápolis e o Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. Nas palavras de Matoso, seus trabalhos fascinam a todo aquele que, envolvido ou não com o mundo da construção, admira um trabalho bem cuidado.

 

Dorival Caymmi dispensa apresentações. Cantor, compositor, pintor e ator, transpôs para suas melodias os hábitos, costumes e tradições do povo baiano. Cantou em seus versos as maravilhas do povo e da mulher brasileira e as agruras dos negros e pescadores, retratando com sensibilidade única a vida e o dia-a-dia do litoral brasileiro. Tornou-se estrela de primeira grandeza falando do povo e da cultura do país, fazendo do sobrenome Caymmi sinônimo de música popular brasileira.

 

Por mais que alguns deles não sejam conhecidos do grande público, não se engane. Estamos falando aqui de artistas de mesmo quilate, cada um em sua área de atuação. Se infelizmente não estão mais entre nós, as obras que deixaram são um inestimável legado a ser conhecido e estudado por todos que se interessam pela produção de brasileiros que, tendo dedicado a vida a seu labor e sua arte, contribuíram na construção da identidade cultural de um grande país, ainda em formação. Ao modificar o mundo ao seu redor, estes grandes homens sem sombra de dúvida apontam também para o conhecimento do mundo como um todo e do Brasil em particular.

 

 

Artigo publicado no jornal Hoje em Dia em 24 de agosto de 2008

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