Mariana

Com as freqüentes visitas que tenho feito à pequena e simpática cidade de Mariana, venho percebendo a dificuldade e os dilemas encontrados pelos gestores públicos em conciliar a preservação do patrimônio com o progresso nas cidades históricas.

Grande parte destes dilemas reside muitas vezes no erro em entender a cidade histórica como “pertencente” ao passado, e não como pertencente ao momento atual, mas tendo estado ali desde então. Dentro deste ponto de vista, tais sítios não podem ser encarados senão como cidades contemporâneas, uma vez que estão vivas e ativas ainda hoje. Todavia, justamente pelo inegável valor do que ali reside um nível maior de cuidado se faz necessário na inserção de novas edificações e na intervenção em antigas, de modo que o conjunto existente não apenas não seja desvalorizado, mas evolua positivamente com o passar dos anos. Na prática o que vemos é de um lado um excesso de zelo na manutenção de edificações muitas vezes condenadas, forçadas a um falseamento de suas feições (vide o hotel Pilão, em Ouro Preto) e de outro o desprezo de grande parte da população tanto pelo patrimônio existente quanto pela qualidade do que se constrói hoje (vide a entrada principal da cidade, em Mariana).

Distante 110 km de Belo Horizonte, primeira capital de Minas e primeira cidade planejada do estado, Mariana hoje luta para se recuperar das seqüelas deixadas por gestões desastrosas no que tange à lida com o patrimônio histórico. Grandes equívocos nesse sentido ali se fizeram presentes nas últimas décadas, sendo talvez o maior deles a construção de um gigantesco estádio poliesportivo no centro da cidade, não sem motivo apelidado por moradores e visitantes de “elefante branco”. Sua recente remoção inaugura uma nova abordagem da cidade por parte de seus governantes ao mesmo tempo em que esta inicia o pleito de seu reconhecimento como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO. A seleção dos novos projetos a serem edificados na cidade através de concursos públicos sérios é a meu ver um próximo e necessário passo no sentido da democratização deste processo.

Percebo que em algum ponto do caminho a cultura construtiva e artística desta comunidade se enfraqueceu a ponto das qualidades espaciais e simbólicas encontradas na arquitetura e na arte do passado não se refletirem na cultura que é produzida hoje pelos herdeiros desta mesma história. Cidades com este perfil muitas vezes se tornam, em termos de produção artística, reféns ou mesmo escravas de suas glórias passadas, impedindo muitas vezes o avanço destes campos no momento atual. Não raro encontramos “arquitetura colonial” sendo edificada ainda hoje, nova em folha, e pinturas ou esculturas “barrocas” sendo feitas desde então, sem muitas inovações. Diante disto, o desafio passa a ser ainda despertar na população a verdadeira consciência e respeito pela tradição que os trouxe até os dias atuais sem, no entanto, tolhê-la, permitindo e estimulando que sua liberdade de inovar nos campos da cultura se manifeste fazendo assim jus à bagagem que possui.

Acredito que um bem elaborado plano diretor de longo prazo, um conselho deliberativo de patrimônio forte, a clara delimitação dos limites do centro histórico e o correto estabelecimento dos parâmetros de uso e ocupação do solo são passos importantes rumo ao futuro que desejamos para nossas cidades históricas. Mas tudo isto não vale de nada se não encharcarmos a população de educação e cultura, garantindo que os avanços necessários não venham destruir as boas obras nem por outro lado tornem estas cidades apenas “bichos empalhados”.

 

Artigo publicado no jornal Hoje em Dia em 31 de maio de 2009

 

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Casario da rua Dom Silvério, Mariana, Minas Gerais

 

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Carré d’Art em Nîmes, França: intervenção cuidadosa do escritório Foster & Partners

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