Inovar é preciso

 

Uma passada de olhos nos classificados de imóveis é suficiente para perceber que as opções, em termos de tipologia de apartamentos disponíveis não são muitas. 1,2, 3 ou 4 quartos, com ou sem suítes, uma ou mais salas, cozinha, etc. Grosso modo, os setores principaissocial, íntimo e serviços – continuam os mesmos desde o período colonial. Nosso modo de vida e nossas organizações familiares, no entanto, quanta diferença!

 

Em um mercado dominado e submisso às grandes construtoras e corretores de imóveis que não fazem a mais vaga idéia do que seja arquitetura, não poderia ser muito diferente. Se aquilo vende, por que mudar? Por outro lado, conversando com colegas e clientes, nos deparamos com a inquietação daqueles que buscam e gostariam de encontrar um leque maior de opções de moradia, mais adequados a seu modo de vida. Nem todos têm as mesmas necessidades, por que todos deveriam morar da mesma forma? Não estou aqui levantando uma cruzada contra os apartamentos 3-quartos-suíte-sala-cozinha-banheiro-área-de-serviço-duas-vagas-de-garagem. Eles resolvem bem as necessidades da grande maioria dos usuários, nem que seja após 2 ou 3 meses de reforma e a demolição de algumas ou muitas paredes, muitas vezes recém construídas. Vemos que hoje as pessoas buscam espaços mais amplos, mais integrados e sofrem com a miniaturização dos cômodos. Vemos o mercado supervalorizando os revestimentos – a superfíciequando o que de fato importa em termos de habitação é justamente o contrário – a qualidade dos materiais que estão por trás dos revestimentos e, acima de tudo, o espaço conformado por esta matériasua arquitetura.

 

Não por acaso, é por parte dos arquitetos que vem surgindo, aqui e ali, alguns empreendimentos que entendem estas questões e buscam fugir à lógica dominante do mercado imobiliário. Temos hoje em Belo Horizonte os primeiros exemplos destas iniciativas. O primeiro deles, mencionado nesta coluna por Carlos Alberto Maciel, é o Loft de Júlio Teixeira na rua São Paulo, fruto de uma engenhosa articulação da lei de uso do solo, com um belo resultado final e unidades de tamanhos e configurações variadas (fig.1). Os edifícios projetados e construídos por Eduardo Moreira na rua Padre Severino também se destacam por oferecer seis unidades de bom tamanho, todas dúplex e com áreas externas privativas, em terrenos com apenas dez metros de largura, obtidas por meio da adoção de afastamentos laterais desiguais (fig.2). Em solução feliz para um terreno acidentado no bairro Santa Lúcia, os arquitetos Carlos Alberto Maciel e Bruno Santa Cecília construíram um pequeno edifício de uso misto, que conta com cinco pequenos estúdios nos andares superiores e uma área comercial abaixo do nível da rua, liberado em pilotis para estacionamento (fig.3). Carlos Teixeira inicia recentemente seu primeiro empreendimento no Sion, que conta com um andar intermediário atípico, com janelas maiores e pé-direito mais alto, conseguido também através de uma interpretação crítica de lei de uso do solo (fig.4). Se em Belo Horizonte ainda percebemos que tais iniciativas são isoladas, os paulistas estão mais organizados, como é de seu feitio. A Movimento Um, em parceria com a corretora Axpe, conta em seu portifolio com 4 empreendimentos com este perfil: os edifícios Fidalga 727, Simpatia 236, Aimberê 1749 e Girassol 1206, projetados respectivamente pelos escritórios Triptyque, GrupoSP, Andrade Morettin e Frentes Arquitetura (fig.5). Ao contrário do que poderiam praguejar construtores e corretores de visão estreita diante de tais propostas, vão todos muito bem, obrigado.

 

A grande diferença apresentada por tais empreendimentos reside em valores que muitas vezes não estão na matéria em si. A boa arquitetura, fruto de um projeto bem elaborado, tecnicamente bem desenvolvido e de uma obra bem executada, abriga em si qualidades espaciais que vão além do brilho do granito e que são reconhecíveis por qualquer pessoa – seja ela um especialista em arquitetura ou simplesmente alguém que deseja adquirir uma casa para morar. Tais qualidades, ao contrário dos materiais da moda, não envelhecem. São valores atemporais, que irão garantir a constante valorização de tais imóveis pela vida afora. Uma vida boa e feliz, como diria Cacá Brandão.

Artigo publicado no jornal Hoje em Dia em 5 de abril de 2009

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1 – Loft – Júlio Araújo Teixeira 

 

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2 – Ed. Via Severino – Eduardo Moreira

 

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3 – Estudios Terra – Bruno Santa Cecília e Carlos Alberto Maciel

 

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4 – Montevidéu 285 – Carlos M. Teixeira

 

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5 – Eds. Fidalga, Simpatia, Aimberê e Girassol, da Movimento Um – SP

 

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