Para quê o arquiteto?

“Bem mais do planejar uma construção ou dividir espaços para sua melhor ocupação, a Arquitetura fascina, intriga e muitas vezes, revolta as pessoas envolvidas pelas paredes. Isso porque ela não é apenas uma habilidade prática para solucionar espaços habitáveis, mas encarna valores. A Arquitetura desenha a realidade urbana que acomoda os seres humanos no presente. É o pensamento transformado em pedra, mas também a criação do pensamento. Do seu, inclusive. É bom conhecê-la melhor”
Carlos A.C. Lemos

 

Em conversa com a editora deste caderno, fui solicitado a dizer para que servem os arquitetos, num artigo útil para muitos e para ela mesma. Me espanto: mas lidando com tantos arquitetos e publicando seus textos, não saberia ela a resposta? Não. Por uma simples razão: muito poucos o sabem e, pesquisando fóruns e discussões na internet, percebo que mesmo vários arquitetos não têm a mais vaga idéia de porque estudaram cinco anos ou mais. Em nossa sociedade, por um motivo ou outro, a arquitetura não é tida como um campo de interesse, como por exemplo, o cinema, a música, o futebol, os automóveis (…). O motivo por que isto acontece é outra história. Fato é que a maioria das pessoas não sabe ao certo o que é arquitetura.
Então, o que é arquitetura? Alguém dirá: é construção, é material! Ok, é construção, material, e o que mais? Arquitetura é justamente o vazio decorrente da reunião planejada de diversos materiais, pautada por um raciocínio construtivo. Uma construção lógica, baseada em intenções claras, visando incorporar desejos, valores e objetivos, sejam eles individuais ou coletivos, pessoais ou comerciais. Deve levar em conta a situação geográfica particular, o clima da região e mais uma infinidade de outros fatores.
Para que serve o arquiteto? Ele é o profissional que detém os conhecimentos mais amplos no campo da construção. Enquanto um engenheiro projetista sabe de estruturas, instalações elétricas ou hidráulicas, o pedreiro de assentar tijolos e o marceneiro de trabalhar a madeira, o arquiteto sabe um pouco de tudo isto. É o profissional que possui a visão global da construção e dos diversos elementos que compõe uma obra construída. Sua função primordial é o planejamento, o projeto, que significa definir previamente algo a ser executado. Assim, não chame o pedreiro antes do arquiteto. Procure o arquiteto antes de qualquer outro profissional e ele irá mostrar-lhe o caminho das pedras. É ele que detém o conhecimento necessário para definir e orientar as ações de todos os envolvidos em uma obra. Quanto antes o arquiteto for procurado, mais útil ele lhe será.
Como ele trabalha? Um projeto arquitetônico envolve diversas etapas no seu desenvolvimento. Esta divisão em etapas visa envolver apenas as pessoas necessárias em cada fase, tornando o processo mais simples e objetivo. As etapas iniciais (Estudo Preliminar e Anteprojeto) envolvem apenas o arquiteto e os clientes, e definem de forma ilustrativa o que se pretende edificar e como os diversos espaços irão se organizar. Estando o cliente satisfeito com o Anteprojeto, passa-se à próxima etapa. Serão agora elaborados os Projetos Básico e Legal. O primeiro servirá de base para o desenvolvimento dos projetos complementares (estrutural, elétrico, hidráulico, etc.). O segundo, para aprovação legal da construção pelos órgãos públicos competentes. Aprovado o projeto Legal e desenvolvidos os projetos complementares, o arquiteto irá elaborar o Projeto Executivo que, como o nome diz, se destina à execução propriamente dita. Nesta etapa os demais projetos são incorporados ao arquitetônico – a chamada compatibilização, que visa identificar e corrigir interferências entre os projetos, evitando problemas mais adiante. Até esta etapa o projeto é representado de forma integral e orientará a construção de grande parte da obra. No entanto, para se alcançar o máximo de qualidade na construção acabada, o Detalhamento se faz necessário. Nesta etapa, muitas vezes negligenciada, elementos do projeto serão isolados do todo de forma a alcançarem um nível maior de detalhe, para execução de uma mão-de-obra específica. Uma escada ou janela a ser executada por um marceneiro ou serralheiro, uma cozinha com peças a serem encomendadas de uma marmoraria, revestimentos de banheiro a serem dispostos de forma a alcançar o melhor acabamento e assim por diante.
Quanto ele cobra? Ao procurar um arquiteto pela primeira vez, a maioria se espanta com o orçamento recebido e pensa com seus botões: “mas é só um desenho!”. No entanto, é justamente a qualidade das informações contidas neste “simples desenho” e a sensibilidade do profissional em perceber e interpretar as suas necessidades que irá determinar, em última instância, a qualidade final do que será construído. Todos concordam que a qualidade dos insumos envolvidos em uma construção é determinante da sua qualidade. O projeto arquitetônico é justamente o insumo que irá determinar quais serão os materiais mais adequados para cada situação. Pensando assim, torna-se fácil perceber que a sua qualidade será determinante na qualidade final da edificação. Existem tabelas como a do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) ou da ASBEA (Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura), que procuram estabelecer a remuneração dos arquitetos em diversos tipos de projetos. Grosso modo, a remuneração do arquiteto tem como base um percentual do custo da obra (estimado a partir da metragem e padrão de construção) e varia de 2% (em grandes obras como hospitais, shopping centers, complexos hoteleiros etc.) a 10% em obras menores ou de grande complexidade.
Ao comparar propostas de diferentes profissionais, fique atento. Nem todos os arquitetos trabalham da mesma forma ou oferecem os mesmos serviços. Olhando apenas o valor cobrado e não o serviço que está sendo oferecido, corre-se o risco de comparar abacates com bananas. Por exemplo: ao adquirir um veículo novo, lhe é oferecido por um vendedor um modelo popular, por digamos R$25 mil e um modelo de luxo por R$75 mil. Não estamos falando do mesmo produto, certo? Procure se inteirar do que cada um lhe oferece e assim optar de forma consciente. Tenha sempre em mente que contratando um bom arquiteto, a economia que o planejamento adequado irá proporcionar à sua obra irá certamente absorver o custo dos seus honorários.
A responsabilidade do arquiteto reside na consciência da enorme responsabilidade que lhe cabe. Muitas vezes o que está em jogo são os recursos amealhados ao longo de uma vida de trabalho duro, objetivando a concretização de um sonho. Como a sua orientação irá determinar o emprego destes recursos, um bom arquiteto jamais pode ser leviano com relação a este fator.

 

Artigo publicado no jornal Hoje em Dia em 24 de fevereiro de 2008

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3 Comentários»

  paulo wrote @

aaadorei

  maria wrote @

adorei.Eu estou em duvida se faço faculdade de arquitetura ou medicina.

  Clovis Perez Filho wrote @

Olá, Maria!
Um arquiteto segura uma lapiseira, já um médico, um bisturi! Tem uma diferença enorme!!!


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