Revisitando

Há algum tempo, em viagem ao Rio de Janeiro, tive a feliz oportunidade de visitar o Instituto Moreira Salles, instalado no bairro da Gávea. Seu centro cultural funciona hoje no belíssimo palacete moderno construído como residência do então embaixador Walter Moreira Salles, em 1951. Projetada por Olavo Redig de Campos, arquiteto brasileiro de formação italiana, a casa se organiza com linhas claras em torno de um pátio de configuração colonial, desenvolvendo-se em áreas abertas tratadas por Burle Marx junto à mata da Gávea, aos pés da pedra de mesmo nome. A visita a esta casa me trouxe à lembrança o importante papel exercido pelo movimento moderno na formação da arquitetura brasileira.

À parte de modismos recentes na decoração que, aliás, não fazem mal algum, o moderno e seus desdobramentos encontraram no Brasil, desde os anos vinte, terreno e mentes férteis à aplicação das tecnologias construtivas emergentes desde então. Os princípios observados por Lucio Costa na arquitetura colonial de Ouro Preto (diferenciação entre estrutura e alvenaria, afastamento do piso habitável do solo úmido…) iam de encontro às teorias de arquitetura moderna do já renomado Le Corbusier. Em visita ao Brasil em 1936, este viria catalisar a primeira experiência mundial de vulto desta arquitetura no edifício do MEC (1937-43),centro do Rio de Janeiro. A Europa do pós-guerra volta então os seus olhos para os trópicos e o processo observado a partir daí funda as bases para o mais consistente movimento arquitetônico já percebido no país, tendo se tornado mesmo uma tradição. Tradição no seu melhor sentido, que nos atenta o professor Cacá Brandão: traducere: contar, passar adiante.

Com efeito, com maior ou menor intensidade ao longo dos anos, os princípios da economia de meios, despojamento de ornamentos desnecessários e clareza construtiva vêm encontrando aqui mãos hábeis a trabalhar as mais diversas possibilidades a partir da inegável referência histórica moderna, configurando nossa arquitetura contemporânea. Entendamos por contemporâneas duas coisas quaisquer que se encontrem no mesmo tempo, digamos, agora. Se você se encontra diante de um edifício, ele é contemporâneo a você, goste você dele ou não. Provavelmente ele fará sentido para você se havia sentido nele quando foi projetado e construído. De algo que é construído hoje, espera-se tão somente que faça algum sentido ao conformar um mundo tomado por computadores, celulares, Internet sem fio e TV Digital…

Para o centenário Niemeyer, “Tudo começou com Pampulha”. E a cidade de Pampulha não deve fugir à oportunidade de manter-se atual, possuindo como referência histórica tal cabedal. A cidade é, por definição, o espaço de encontro entre pessoas e troca de bens e informação. Cada dia mais, cultura, tecnologia e criatividade são tidos como fatores de atratividade e principais geradores de qualidade de vida nas cidades. O que seria então esta cidade desjada? Em 1921, Oswald de Andrade proferia: “O Brasil tem uma missão a cumprir: a de alcançar o estágio atual da civilização paulista”. Talvez vendo a São Paulo de hoje ele não dissesse isto, mas dá razão a Nelson Rodrigues, quando este diz que “A pior forma de solidão é a companhia de um paulista”. Refiro-me aqui ao justíssimo orgulho e deleite dos paulistanos pela sua cidade, aliás, moderna por princípio e sedutora por competência. Pensar em tudo isto (coerência ideológica, consciência histórica, gestão continuada, etc) é ter em mente a cidade onde gostaríamos de viver e que buscamos construir.

Artigo publicado no jornal Hoje em Dia em 13 de janeiro de 2008

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